Pix, bancos digitais e trabalho por aplicativo: três livros ajudam a entender quem fica para trás no Brasil conectado
Diálogos Editora

Lançamentos da Diálogos Editora discutem alfabetização digital, poder das plataformas e falta de autonomia sobre o próprio tempo em um país no qual celular virou ferramenta para trabalhar, movimentar dinheiro e acessar direitos

Pagar uma conta, fazer um Pix, consultar o saldo, pedir um cartão, contratar um empréstimo, receber por um trabalho, acessar um benefício social ou até marcar uma consulta. Em poucos anos, uma parte considerável da vida financeira e cotidiana dos brasileiros migrou para a tela do celular. A facilidade, porém, não é igual para todo mundo.

Ter acesso à internet ou possuir um smartphone não significa necessariamente ter conhecimento para comparar serviços, reconhecer uma fraude, proteger dados pessoais, compreender contratos digitais ou mesmo navegar com autonomia pelas plataformas que passaram a mediar parte significativa da vida.

É a partir de contradições como essas que a Diálogos Editora estreia no mercado editorial brasileiro. Criada a partir da experiência de mais de três décadas da Ação Educativa, a editora lança três livros que discutem diferentes dimensões da vida digital: “Alfabetismo no Brasil em tempos digitais”, “A internet não precisa ser assim” e “Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?”.

Juntas, as obras ajudam a ampliar uma discussão cada vez mais presente também no universo financeiro: digitalizar um serviço é diferente de democratizar seu acesso.

Quando a vida financeira cabe no celular, alfabetização digital também importa

O Brasil viveu uma transformação acelerada na maneira como sua população se relaciona com dinheiro. Bancos digitais, carteiras virtuais, pagamentos instantâneos, aplicativos e serviços financeiros online diminuíram distâncias e simplificaram operações que antes exigiam deslocamento até uma agência. Ao mesmo tempo, transferiram novas responsabilidades para o usuário. É preciso entender interfaces, criar e proteger senhas, reconhecer tentativas de golpe, avaliar mensagens suspeitas, conferir informações e tomar decisões financeiras em ambientes digitais cada vez mais complexos.

É justamente essa ampliação do conceito de alfabetização que aparece em “Alfabetismo no Brasil em tempos digitais” (R$ 75), organizado por Roberto Catelli e Heloisa Trenche.

O livro parte da ideia de que, em uma sociedade digitalizada, ler e escrever continuam sendo competências fundamentais, mas já não bastam para garantir participação plena na vida social. O exercício de direitos passa também pela capacidade de compreender e utilizar criticamente ferramentas digitais. Isso vale para a educação e o trabalho, mas também para o dinheiro.

Afinal, a mesma tecnologia capaz de facilitar uma transferência bancária pode se tornar uma barreira quando o usuário não compreende o funcionamento da plataforma ou não dispõe dos conhecimentos necessários para identificar riscos.

Se o serviço é gratuito, de onde vem o dinheiro?

Há ainda outra pergunta que costuma desaparecer diante da conveniência proporcionada pelas plataformas: qual é o modelo econômico por trás da internet que usamos? Em “A internet não precisa ser assim” (R$ 70), Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares discutem a concentração de poder nas mãos das grandes empresas de tecnologia, a coleta massiva de dados, o funcionamento dos algoritmos e problemas como o racismo algorítmico.

O livro questiona principalmente a sensação de inevitabilidade construída em torno desse modelo. A internet que conhecemos hoje não surgiu espontaneamente: ela é resultado de decisões econômicas, políticas e empresariais. E os dados dos usuários estão no centro dessa economia.

Cada busca, clique, localização, preferência e comportamento pode contribuir para a formação de perfis utilizados por plataformas para prever interesses, direcionar publicidade e organizar aquilo que aparece na tela.

Quando decisões sobre consumo, crédito, trabalho e acesso a oportunidades são cada vez mais mediadas por sistemas automatizados, compreender quem desenvolve essas tecnologias — e a partir de quais critérios — deixa de ser uma discussão restrita aos especialistas.

Quem pode desligar o celular?

O terceiro lançamento acrescenta uma dimensão menos óbvia à discussão econômica: tempo também é riqueza.

Em “Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?” (R$ 70), Michelle Prazeres investiga a aceleração da vida contemporânea e questiona a ideia de que basta organizar melhor a rotina ou reduzir o tempo de tela para escapar da sobrecarga. Para parte significativa dos trabalhadores, estar conectado não é uma escolha.

É pelo celular que chegam corridas, entregas, trabalhos temporários, mensagens profissionais, pagamentos e oportunidades de renda. Mesmo trabalhadores formalizados convivem com grupos de WhatsApp, e-mails e demandas que frequentemente ultrapassam os limites tradicionais do expediente.

Nesse cenário, fazer um “detox digital” pode ser menos uma questão de disciplina e mais uma possibilidade determinada pelas condições materiais de cada pessoa.

Ter autonomia para decidir quando trabalhar, quando responder e quando simplesmente ficar offline também é uma forma de privilégio.

Tecnologia não apaga desigualdades automaticamente

Os três lançamentos chegam justamente quando uma nova transformação começa a ocupar o cotidiano: a inteligência artificial.

Ferramentas capazes de produzir textos e imagens, analisar informações e automatizar tarefas já começam a alterar profissões, relações de trabalho e modelos de negócio. Mas toda nova tecnologia chega a uma sociedade que já possui desigualdades de renda, raça, escolaridade e acesso a direitos.

Por isso, discutir inovação apenas pela quantidade de novos recursos disponíveis pode esconder uma pergunta mais importante: quem tem condições de aproveitar essas oportunidades?

Para Roberto Catelli, diretor editorial da Diálogos, um dos objetivos da nova editora é justamente fazer com que debates sobre educação, cultura, tecnologia e democracia ultrapassem os ambientes acadêmicos e façam parte da conversa cotidiana. Talvez esse seja o ponto de encontro entre os três livros.

O Brasil pode estar cada vez mais conectado, bancarizado e digitalizado. Mas inclusão digital não é simplesmente colocar um aplicativo no celular de alguém.

É garantir que essa pessoa consiga entender o sistema, proteger seus dados, tomar decisões com autonomia e, sobretudo, não transformar cada nova facilidade tecnológica em uma nova forma de desigualdade.

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