Pesquisadores da UFPR buscam investimento de US$ 2 milhões para escalar fabricação de colágeno e evitar abate e extinção dos jumentos brasileiros
Produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão, que dispensa o abate dos animais, é a aposta da pesquisa inédita, em fase final, da Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O projeto está à procura de um investimento de US$ 2 milhões para criação de infraestrutura robusta, capaz de viabilizar a produção de escala do colágeno de jumento. Somente o mercado de ejiao é avaliado em US$ 1,9 bilhão, com projeção de alcançar US$ 3,8 bilhões até 2032.
No final de 2025, a pesquisa havia concluído as primeiras etapas laboratoriais e agora entra na reta final. A expectativa é que até o final de 2026 o laboratório da universidade apresente o processo produtivo em larga escala.
O investimento será focado em migrar do laboratório da universidade e ser testada em biorreatores de 10 e 50 litros, além do investimento em infraestrutura robusta, capaz de viabilizar a produção em larga escala do do colágeno do jumento.
Colágeno de jumento brasileiro é insumo base da medicina tradicional chinesa
O colágeno do jumento pauta a indústria da medicina chinesa na produção do ejiao, gelatina extraída da pele do animal. A fermentação de precisão consiste em utilizar micro-organismos, geneticamente modificados, para produzir proteínas de origem animal.
A pesquisa da UFPR é uma oportunidade para evitar o abatimento e extinção da raça em solo brasileiro. O Brasil tem cerca de 78 mil jumentos, segundo estimativa da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), o IBGE e a plataforma Agrostat, último levantamento em 2025.
De origem africana, o jumento está presente nas Américas, Europa, Ásia e Oriente Médio. A Etiópia é o país com a maior população no mundo, com mais de 10 milhões de animais.
Inserção do DNA do jumento
Os pesquisadores da universidade farão a inserção do DNA responsável pela produção do colágeno de jumento em um micro-organismo, que passará a atuar como uma biofábrica. No segundo ano do projeto, será possível avançar para o processo de escalonamento inicial da produção
“Avançamos nas etapas mais complexas no estudo científico pautada na inovação. Agora, estamos prontos para inserir o DNA do colágeno em uma levedura, que funcionará como uma biofábrica, processo semelhante da produção de cerveja”, explica Carla Molento, PhD pela Universidade McGill, no Canadá e coordenadora do Laboratório de Zootecnia Celular da UFPR.
O projeto é financiado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), por meio do Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), e pela Fundação Araucária, SETI, Governo do Estado do Paraná. Também conta com uma parceria estratégica com a Universidade de Wageningen, na Holanda, referência mundial em biotecnologia para produção de proteínas alimentares alternativas ao uso de animais.
“Queremos comparar o DNA do jumento brasileiro com sequências internacionais para garantir uma descrição precisa do produto. Isso é fundamental pensando na aplicação comercial em grande escala”, esclarece Molento. A meta é apresentar, até dezembro de 2026, a produção de miligramas de colágeno de jumento obtido integralmente por fermentação de precisão, comprovando que a tecnologia é viável.
Segundo a pesquisadora, apesar das quantidades iniciais serem pequenas, os resultados são considerados promissores. As três primeiras etapas, que envolvem o sequenciamento do DNA, sua amplificação e preparação, já foram cumpridas com sucesso.
Necessidade de financiamento de US$ 2 milhões para avanço científico
Apesar dos avanços científicos alcançados, o projeto busca recursos para a etapa de escalonamento. Para testar a produção do colágeno em biorreatores de maior capacidade, a equipe estima US$ 2 milhões em investimento. Sem esse aporte, a pesquisa permanece restrita à prova, o que limita a validação do processo em condições semelhantes às exigências da indústria, além de adiar a possibilidade de transferência da tecnologia para o mercado.
“Hoje trabalhamos com pequenas quantidades, em um ambiente de laboratório da universidade. Para aplicação industrial, precisamos de financiamento a fim de instalar biorreatores maiores e testar a produção em escala piloto”, destaca Molento.
De acordo com a pesquisadora, esse financiamento pode vir tanto de fontes públicas quanto privadas, incluindo empresas interessadas, organizações internacionais ou nacionais.
Além do impacto científico, a pesquisa abre caminho para uma alternativa econômica e ambientalmente mais eficiente em relação ao modelo atual de produção de colágeno de jumento. Hoje, o processo depende do abate dos animais, que enfrenta problemas éticos e de sustentabilidade ambiental e econômica. Com a produção em escala do colágeno de jumento, outros produtos de origem animal poderão ser desenvolvidos a partir da mesma tecnologia, que entrega proteínas animais verdadeiras sem a necessidade de criação e abate de animais, e com um impacto ambiental mais baixo que a produção animal convencional.
“Do ponto de vista produtivo, é muito mais eficiente investir em fermentação de precisão do que em fazendas de jumentos. Em um galpão, com alguns biorreatores, é possível produzir uma quantidade muito maior de proteína, com menos insumos e sem o abate”, explica a pesquisadora.
Colágeno de laboratório é altamente purificado
Outro diferencial é que o colágeno produzido em laboratório é altamente purificado, o que facilita sua comercialização no modelo B2B, modelo de negócio onde uma empresa vende produtos ou serviços para outras empresas.
“A estratégia é vender o colágeno purificado para empresas que já produzem os produtos finais, seja na China ou em outros mercados”, afirma Carla. Para ela, o colágeno de jumento pode funcionar como uma porta de entrada à consolidação das proteínas alternativas no setor de produção animal.
A salvação dos jumentos
Além de gerar ganhos milionários com a venda de colágeno para a China, a produção em biorreatores pode contribuir para salvar os jumentos da extinção. Dados da FAO, do IBGE e do Agrostat mostram que a população desses animais no Brasil despencou 94% entre 1996 e 2024.
“De cada 100 jumentos que existiam há 30 anos, hoje restam apenas seis”, afirma Patricia Tatemoto, PhD em Ciências, com ênfase em Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal pela USP, e coordenadora da organização no Brasil.
O abate ocorre de forma extrativista, não movimenta a economia local e beneficia apenas dois abatedouros em funcionamento no interior da Bahia. Trata-se de uma atividade que contraria dados técnicos e científicos já produzidos e divulgados no Brasil.